terça-feira, 20 de abril de 2010

Poema - Haroldo de Campos.

de sol a sol
soldado
de sal a sal
salgado
de sova a sova
sovado
de suco a suco
sugado
de sono a sono
sonado

sangrado
de sangue a sangue





onde mói esta moagem
onde engrena esta engrenagem

moenda homem moagem
moagem homem moenda

engrenagem
gangrenagem





de lucro a lucro
logrado
le logro a logro
lucrado
de lado a lado
lanhado
de lodo a lodo
largado





sol a sal
sal a sova
sova a suco
suco a sono
sono a sangue





onde homem
essa moagem
onde carne
essa carnagem
onde osso
essa engrenagem





homem forrado
homem ferrado

homem rapina
homem rapado

homem surra
homem surrado

homem buraco
homem burra





homem senhor
homem servo

homem sobre
homem sob

homem saciado
homem saqueado

homem servido
homem sorvo





homem come
homem fome

homem fala
homem cala

homem soco
homem saco

homem mó
homem pó





quem baraço
quem vassalo

quem cavalo
quem cavalga

quem explora
quem espólio





quem carrasco
quem carcassa

quem usura
quem usado

quem pilhado
quem pilhagem





quem uísque
quem urina
quem feriado
quem faxina
quem volúpia
quem vermina





carne carniça carnagem


sangragem sangria sangue





homemmoendahomemmoagem





açucar
nesse bagaço?

almíscar
nesse sovaco?

petúnia
nesse melaço?





índigo nesse buraco?





ocre
acre
osga
asco





canga cangalho cagaço
cansaço cachaço canga
carcasse cachaça gana





de míngua a míngua
de magro a magro
de morgue a morgue
de morte a morte





só moagem
ossomoagem

sem miragem
selvaselvagem





servidão de passagem

2 comentários:

Laísa disse...

genial!!

Anika disse...

Genial mesmo! que tal musicar????